sexta-feira, 29 de julho de 2016

A SERVIÇO DO GOLPE, REVISTA VEJA DECLARA GUERRA AOS PROFESSORES


Maria Izabel Azevedo Noronha Bebel


Se existem pessoas com dúvidas sobre a extensão e finalidades do golpe em curso no Brasil, a leitura do artigo Professor ganha mal?, de autoria de Claudio de Moura Castro, publicado na revista Veja de 27 de julho, ajuda a entender o que está por vir se o Governo golpista de Michel Temer for mantido no poder.
Este artigo não vem por acaso. Está sintonizado com as medidas que o Governo interino vem tomando em relação à educação brasileira. Mesmo em uma revista como Veja, notoriamente desqualificada e desqualificadora, o que lemos é totalmente descabido e enojante.
O senhor Claudio de Moura Castro, como os demais adversários dos professores e da educação não conhece nem vivencia a realidade da escola pública e não tem compromisso com a maioria da população. Para ele o professor não precisa ser bem remunerado para ministrar aulas de qualidade.
Querem acabar com o Piso Salarial Profissional Nacional
No momento em que o Presidente interino Michel Temer, Governadores e Prefeitos descompromissados com a educação atacam o Piso Salarial Profissional Nacional (uma conquista de dois séculos de lutas dos professores sancionada pelo ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva), o articulista da Veja diz que os salários da categoria “são até competitivos”, se comparados com outras profissões. Ele envereda pela conhecida cantilena da existência de “bons” e “maus” professores (como se os resultados da aprendizagem dos estudantes dependessem única e exclusivamente de qualidades intrínsecas a cada professor e professora), o que casa como uma luva na proposta de Temer de instituir uma espécie de “bônus” nacional para substituir a piso salarial. Ocorre que bônus não se incorpora aos salários e nos proventos da aposentadoria. Os professores, que já recebem salários baixíssimos, teriam aposentadorias ainda mais miseráveis.
O professor ganha mal!
A argumentação do artigo ataca também a meta 17 do Plano Nacional de Educação (contemplada no Plano Estadual de Educação de São Paulo e de demais Estados e Municípios), pela qual o professor deve receber remuneração equivalente à dos demais profissionais com formação de nível superior.
Estudos realizados em 2015 pela subseção do DIEESE na APEOESP indicaram que a defasagem da média salarial dos professores no estado de São Paulo em relação aos demais profissionais com formação de nível superior era de 75,33%. Em nível nacional, considerando as diferentes bases salariais, nos diferentes entes federados, a defasagem é hoje superior a 50%. Os dados, portanto, contradizem o artigo da Veja.
Não há o que tergiversar: o professor brasileiro ganha muito mal. Mais ainda quando consideramos o seu papel social. O professor não é qualquer profissional na nossa sociedade: ele forma todos os demais profissionais. Médicos, engenheiros, físicos, economistas, jornalistas e todos os profissionais com formação adequada passaram pelos bancos escolares. Nossa profissão, além disso, é uma das mais desgastantes, sobretudo nas escolas públicas. Como, então, podem ser considerados “privilégios” direitos devidos a uma categoria com tamanha responsabilidade social, mal remunerada e submetida a duríssimas condições de trabalho no nosso país?
Retomando a linha que vigorou durante o Governo do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso e ainda vigora no estado de São Paulo, o artigo culpabiliza exclusivamente os professores pelas deficiências de aprendizagem dos estudantes. Como não é educador, não conhece a escola pública e não possui conhecimento suficiente sobre educação, o autor ignora que sistemas de avaliação como o PISA, o ENEM e até mesmo o SARESP já incorporam ou consideram incorporar variáveis sócioeconômicas relacionadas às comunidades nas quais as escolas estão inseridas e também dados sobre as condições estruturais das unidades escolares; sobre as políticas educacionais vigentes; entrevistas com professores, estudantes e pais e outros fatores que interferem no rendimento escolar.
Veja ataca professores e defende os privilegiados
Realizando uma verdadeira criminalização dos direitos do professor, o artigo de Veja investe contra a nossa aposentadoria especial, outro alvo dos ataques de Michel Temer. Este direito foi uma conquista da nossa categoria e será defendida ferrenhamente defendida. Após 25 anos de trabalho em salas de aula superlotadas, sem condições ambientais, em escolas marcadas pela violência, autoritarismo dos gestores e baixo rendimento escolar em consequência de fatores aos quais me referi anteriormente, a aposentadoria especial é uma necessidade real e uma obrigação do Estado e da sociedade para as professoras e os professores. Por que o autor não critica, por exemplo, o Presidente interino Michel Temer, que se aposentou como Procurador do Estado aos 55 anos e percebe um rendimento superior a R$ 30 mil mensais dos cofres públicos?
Sem argumentos sólidos para desqualificar os profissionais da educação pública, ele utiliza uma conta maluca, na qual considera todos os direitos potenciais de um professor (muitos deles inalcançáveis para a maior parte da nossa categoria), para forçar a conclusão de que um professor trabalha apenas 19 anos até se aposentar!. Em outro cálculo mentiroso, onde mistura licenças para cursos de mestrado e doutorado com candidaturas a vereador e licenças-maternidade, o inacreditável senhor chega a dizer que um professor poderá se aposentar após trabalhar apenas 11 anos e meio!!
Desvalorização causa adoecimento
Como tantos outros neoliberais, o autor do artigo repete como um mantra que os professores adoecem e faltam muito. Sim, é verdade, somos uma categoria adoecida. Nossas pesquisas apontam que boa parte dos professores são afastados do trabalho por problemas emocionais, doenças respiratórias, estresse, problemas nas cordas vocais e outras doenças profissionais, ou seja, diretamente resultantes de seu trabalho duro, cotidiano, desgastante nas salas de aula. O que propõe o senhor Claudio de Moura Castro? Prevenção, melhores condições de trabalho, humanização dos espaços escolares, políticas de valorização profissional? Não. Propõe arrocho e corte de direitos.
De qualquer ponto de vista que se olhe o artigo é uma declaração de guerra aos professores e professoras e a toda a comunidade das escolas públicos do nosso país. Ele está perfeitamente articulado a uma política que visa o corte de gastos na educação e demais áreas sociais, como apontam as medidas que encaminhadas pelo Governo interino ao Congresso Nacional. Fique claro, portanto, que estamos no campo de batalha e não nos deixaremos derrotar.
Maria Izabel Azevedo Noronha
Presidenta da APEOESP

5 comentários:

  1. Boa noite. Seu texto esclarece quais os objetivos do que foi publicado na revista. Desqualificar a classe de professores, e passar uma imagem de que somos premiados durante os anos em que lecionamos.
    Digo que, devemos convidar o autor do texto publicado na revista para vivenciar nossa realidade em sala de aula, jornada e condições de trabalho, quantidade de alunos por turma.
    Quando isso acontecer, ele terá direito de opnar sobre nosso salário.

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  2. Parabéns Maria Izabel Azevedo Noronha pelo comentário!
    Este jornalista Cláudio de Moura Castro, pouco conhece a nossa realidade! Sou professor da Rede Pública Municipal de Ensino. Ingressei na Rede Pública de Ensino através de concurso público, por capacidade, e não por apadrinhamento. Tenho dois contratos no município de Vertente do Lério-PE; trabalho quase 12 horas por dia ( de segunda à sexta) para ganhar um mísero salário inferior a R$ 4.000,00. Gostaria de reforçar suas palavras, lembrando a este jornalista da Veja que Licença Prêmio não se goza com 5 anos, e sim, a cada 10 anos de trabalho, isto é, quando um gestor público municipal resolve nos dar o que é de sagrado direito. Tenho 1 ano de licença para gozar, porém, só recentemente me conceberam 2 meses. Lembrando ainda que professor se aposenta com 30 anos de árduo trabalho em sala de aula, e aos 55 de idade; e ainda, que se o professor vai ao médico, é porque algo não está bem! A competência de quem emite um atestado é de um profissional da saúde ( de um médico). Mestrado e Doutorado, não se compra em livraria, se conquista por capacidade intelectual. Creio então, que este jornalista tenha alguma frustação com a educação! Talvez, tenha tentado uma carreira acadêmica, e nunca conseguiu!? Se professor é tão bem remunerado no Brasil, creio que ele esteja no lugar errado! Por que ele não deixa o jornalismo e vem para sala de aula na Rede Pública de Ensino brasileira!

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  3. Sobre a reportagem da "respeitável" Revista Veja. Segue a resposta de uma professora:
    Por favor, quem concorda compartilhe o máximo que puder.

    Prezado Cláudio de Moura Castro, como professora repúdio veemente seu artigo, bem como a revista veja por publicar o lixo escrito pelo senhor.
    Na sequência vai minha argumentação é discordância a um texto que beira a falta de moral, decência, respeito e competência.
    Observa-se claramente total desconhecimento do assunto em questão.
    Segundo a matéria os professores"oneram" os cofres públicos pelos seguintes motivos:
    A) tem 45 dias de férias
    B) tem aposentadoria especial
    C) vão muito ao médico (pasmem)
    D)tiram licença para fazer mestrado e doutorado (sim, para ele isso é um absurdo)
    E) alguns recebem bem e dão péssimas aulas (assim como em todas as profissões, existem os bons, os excelentes e os ruim. Até na profissão de repórter, pasme)
    F) tem direito a licença prêmio de 12 meses (desconheço este benefício)
    Além da profissão ser tachada como "bico" agora tb somos marajás da educação.
    O caro autor do texto além de distorção a realidade esquece-se de dizer que o profissional da educação da rede pública, em média de 80%, necessita fazer carga horária de 50 horas semanais (distribuídas em cinco dias úteis) a fim de ter uma remuneração no mínimo decente, em contrapartida das 40h semanais (distribuídas em seis dias) dos "empreguinhos da CLT", como o mesmo comparou.
    A reportagem trás tantos outros desvaneios que somente lendo na íntegra para se revoltar com tamanha calúnia e desvalorização de uma profissão tão nobre.
    Vou usar apenas um exemplo de comparação:
    O que dizer dos nobres magistrados do nosso país?
    Juízes e promotores tem 60 dias de férias.
    A cada dia viajado recebem "diária" superior a um salário mínimo.
    Quando cometem crime não são presos, são aposentados.
    Não estou aqui para atacar qualquer profissional ou função pública, mas estes foram alguns exemplos do que "onera" os cofres públicos.
    E se fossemos fazer estas mesmas comparações nos casos dos políticos e seus benefícios?
    Teríamos assunto suficiente para tese de Doutorado, não acham?
    Mas tenho certeza que o autor não tem culhão nem competência para escrever sobre isto. Por que será?
    Desafio este autor a se aventurar na profissão de educador da rede pública já que a considera tão vantajosa assim.
    Mas vou avisando, para isso é necessário estudar muito, ter no mínimo como pré requisito uma licenciatura, prestar concurso público concorrido e ser aprovado, aguardar nomeação, estar apto, passar por estágio probatório de 3 anos com avaliação contínua e além disso tudo ter o dom de ensinar, mas vai o alerta, este não se aprende, se nasce com ele, pois é necessário amar a educação para se submeter as condições desumanas que enfrentamos.( Um outro tema interessante à se debater. Vamos deixar para outra oportunidade, se assim tivermos).
    Como cidadã que vive em um Estado Democrático de Direito, com liberdade de manifestar minha livre opinião e crítica, vedado o anonimato, fica aqui registrado meu repúdio a este e qualquer outro tipo de atitude que menospreze e desvalorize a profissão de professor.
    Peço que como cidadão ou educador que concorde com minha opinião compartilhe esta postagem.
    Que as redes sociais nos dêem a voz que a sociedade não nos dá e que a mídia tanto quer calar.
    Obrigada por me doar um pouquinho do seu tempo para ler meu desabafo.
    Patricia Aledi, professora da rede pública com orgulho.

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  4. É por este e outros motivos que conclamo a todos os professores para terem em mãos a lista de todos os políticos golpistas, aqueles que votaram a favor do impeachment e contra a democracia. Com a referida lista
    em mãos, poderemos dar nossa respostas a eles nas urnas quando forem se candidatar novamete. Não poderemos ter memória curta para liquidar com a carreira política daqueles que governam contra os interesses do povo brasileiro.

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  5. o descaso com a educação continua isso e que nos repudia e indiscutível e os nosso políticos são egocêntricos incapazes de abordar assuntos como esses porque se sabe povo educado e incapaz de ser enganado essa não a meta deles ...!

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