segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O dinheiro não tem pátria

millor
Nos tempos da ditadura, era comum que se usasse a invocação do manifesto de Karl Marx, isolando a frase “os proletários não têm pátria” para chamar de “apátridas” aos comunistas. Uma grande bobagem, pois o contexto em que isso é dito é o da internacionalização do capital (“cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia, com a liberdade de comércio, com o mercado mundial, com a uniformidade da produção industrial e com as relações de vida que lhe correspondem”). Quem quiser leia aí, com mais de um século de antecipação, a tão louvada “globalização”.
O dinheiro, que fala em dólar como antes a fé falava em latim, vai para onde lhe derem maior abrigo contra impostos e maior sigilo quanto à sua propriedade e origem. Simples assim.
Quem acha que programas de repatriação como os feitos aqui em 2016 e 2017 (que trouxeram de volta perto de R$ 210 bilhões ou US 63,7 bilhões) representa a volta do dinheiro legal e ilegalmente deveria tomar conhecimento do estudo do dados levantados pelo economista-chefe da Global Finance Integrity e ex-economista sênior do FMI,  que estima terem saído do Brasil, entre 1960 e 2012, cerca de US$ 590,2 bilhões, 70% deles de forma ilícita, principalmente via subfaturamento de exportações ou  superfaturamento de importações.
Assim, nada há de surpreendente no fato de 17 bilionários brasileiros e mais um magote de milionários que atuam aqui estarem na lista dos donos de empresas offshore em paraísos fiscais como as  Bermudas, Bahamas, Ilhas Cayman, Ilhas Virgens, Malta  e outros valhacoutos do capital, como revela o site Poder360que detém no Brasil o monopólio de acesso aos chamados Paradise Papers, um estranho caso de investigação jornalistica da qual os dados não são dados a conhecimento universal.
Claro que não há nada de mais em terem uma empresa que atue no exterior, ou mesmo uma propriedade por lá. Mas são, quase todas, empresas contábeis, para evitar impostos, camuflar fortunas e esconder dinheiro, tanto que são registradas pelas “lavanderias de capital” Appleby e Asiaciti Trust, especializadas em abrir empresas de fachada.
Muito menos há surpresa que estejam na lista os irmãos Marinho, os donos da Inbev, o banqueiro Safra, o dono da RBS e outros do mesmo naipe. Tal como ocorreu nos Panamá Papers, nada ocorrerá.
A não ser ver essa turma chorando as pitangas de que os impostos são altos e que, coitados, eles ainda são os grandes beneméritos do país.

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